O título algo irónico tomado de empréstimo aos modernos "Índices anuais qualidade" dos CTT serve de pretexto para olharmos para correspondências sujeitas à ação dos dispositivos de censura de vários países durante a Segunda Guerra Mundial.
A carta apresentada levou quase três anos para chegar ao destinatário, tendo circulado de Lisboa (‑2 AGO 1943) para Fort de France / Martinica (29‑3 /46). Tem selos das
emissões “Lusíadas” 1933 (5$00) e “Caravela” 1943 (1$00 e 1$75), perfazendo o
porte de 7$75: 1$75 – cartas até 20 g, nas correspondências para os países
estrangeiros (Declaração 14/07/1934); 6$00 – sobretaxa de correio aéreo (Circular
nº 113 DSE 2).
Foi censurada e apreendida pelas autoridades britânicas
nas Bermudas, tendo sido libertada após a guerra – aplicação da marca
“RELEASED”. Talvez porque o seu destinatário já não se encontrava em Fort de
France em 29 de março de 1946, a carta foi reexpedida para Paris (rasura e
registo de nova morada a vermelho).
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A carta terá sido transportada num voo do clipper "California" da PAN AMERICA com partida de Lisboa em 5 de agosto e
destino a Nova Iorque, via Bolama (Wilson, 2012). O avião partiu de Lisboa a 5
de agosto e fez as seguintes escalas, de acordo com Wilson (2012): Bolama
(6/8/43) / Fisherman’s Lake (6/8/43) / Natal (9/8/43) / Belém (9/8/43) / Port
of Spain –Trinidad (10/8) / S. Juan – Porto Rico (10/8/43) / Bermudas (11/8/43)
/ Nova Iorque (11/08/43).
O voo experimentou problemas técnicos
com avarias do motor da aeronave, o que obrigou à permanência de mais um dia em
Fisherman’s Lake (partida a 8/9/43) e em S. Juan (partida a 11/08/43). À partida
de Lisboa, o avião transportava 1230 libras de correio, o que corresponde a
cerca de 560 quilogramas.
Quanto às razões da apreensão desta
carta pelos serviços da Censura Imperial Britânica, podemos apenas especular.
Embora o seu destino possa parecer a esta distância no tempo algo inofensivo,
importa referir que as Antilhas Francesas permanecem leais a Vichy. Em Fort de
France, Martinica, existia uma importante base naval onde se encontrava parte
da frota francesa que aí se refugiara após a capitulação de França em junho de
1940. A saber: o porta-aviões Béarn (com os aviões), o cruzador Jeanne D’Arc e
o cruzador Emile Bertin, que trouxera cerca de 300 toneladas do ouro do banco
de França. Os mais de 5000 marinheiros estacionados nas ilhas asseguravam a
fidelidade ao regime de Vichy e ao seu representante direto, o almirante Robert.
As Antilhas tinham importância
estratégica para a segurança do canal do Panamá. Além disso, eram também
importantes devido a certas matérias-primas. Por exemplo, nas ilhas de Curaçao
e Aruba, era refinado pela Royal Dutch Shell o petróleo da Venezuela.
Outra possibilidade para a apreensão da carta poderá ter a ver com o seu
destinatário, Marcel Calvy. Nos anos 40, um certo Marcel Calvy – não foi
possível apurar se se trata do mesmo indivíduo ou de um homónimo – terá vivido
em Fort de France, desempenhando um cargo na administração pública local.
Apesar do contexto de guerra à escala mundial e das peripécias que sofreu, registe-se a entrega da correspondência ao seu destinatário, 32 meses após a expedição - uma nota otimista face à adversidade.
COSTA, Manuel Luís (2018) "O correio apreendido pela censura
Britânica nas Bermudas durante a II Guerra Mundial" in Boletim do Clube
Filatélico de Portugal nº 461.
FLYNN, Peter A. (2006) Intercepted in Bermuda. The Censorship of Transatlantic Mail during the Second World War. Chicago: The Collectors Club of Chicago.
FLYNN, Peter A. (2006) Intercepted in Bermuda. The Censorship of Transatlantic Mail during the Second World War. Chicago: The Collectors Club of Chicago.
PROUD, Edward B.(2008) Intercontinental Airmails. Volume One.
Transatlantic and Pacific. Proud Publications Ltd.
WILSON, John (2012) The Wartime Atlantic routes of Pan American
Airways, http://www.wasc.org.uk/PanAm%20group.html (consulta efetuada em 15
de setembro de 2018).
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